Memórias: O pai, o tio, o “brother” e os 8/16 bits

Olá caríssimos leitores, tudo bem com vocês?

Eu prometi a mim mesmo que todo ano, dia 05 de Maio eu faria um post em homenagem ao meu velho e querido pai, que infelizmente nos deixou em 2015 e foi fazer o outro lado da existência muito mais divertido. Se é que este lado existe.

Enfim, dia 05 seria mais um aniversário dele. O mínimo que posso fazer para homenagear alguém tão importante pra minha existência depois da partida dele é tentar preservar as memórias que ele deixou pra mim. E como este é um blog de videogames, tento mencionar as histórias que lembro dele e consigo associar com um dos maiores hobbies que eu tenho. Talvez o maior.

Comecei esta seção falando de um dos jogos favoritos dele, Doom II e toda roubalheira dele de jogar invencível. No ano seguinte relembrei a antiga rivalidade que a gente tinha com Space Cadet 3D para Windows. Por fim, relembrei as histórias dele com o jogo que imagino ter sido o preferido de fato dele, Tetris, numa adaptação do texto que postei anteriormente lá no Retroplayers.

Acabei deixando pra escrever o post desse ano muito em cima da hora, confesso. Posso enumerar desculpas aqui que me fizeram agir dessa forma, mas não o farei. E qual o resultado dessa patetada minha? Eu simplesmente não sabia do que falar. Então fui buscar um antigo rascunho de anotações que fiz para relembrar.

Nestas anotações surgiu este post, um compiladão de coisas que me fazem associar games das primeiras quatro gerações ao saudoso Tio Dudu, um cara incrível que eu sempre tive a impressão que era muito querido por todos, coisa que eu sequer consigo chegar perto. Que filho horrível que eu sou. Bem, melhor deixar isso pra lá.

Antes de qualquer coisa eu só tenho a agradecer. Com certeza ele se virou pra que eu pudesse jogar videogame em segurança dentro de casa. Numa época em que isso era muito mais difícil que os dias atuais, e olha que esses tempos modernos já não são fáceis.

As primeiras memórias que tenho são da época do Atari. Aliás, quando escrevi a minha história com o Atari, ele mesmo apareceu no blog para me lembrar que este Atari a gente ganhou em uma rifa. Uma rifa! Nunca que eu me lembraria disso, eu era muito criança.

Aliás, sabiam que meu pai foi a primeira pessoa a se cadastrar no meu blog pra acompanhar as novidades? E ele foi um dos primeiros a comentar. Meu pai era presente, muito presente. Sempre gosto de deixar isso muito claro. Lembro que vira e mexe ele dizia pra mim que não entendia nada do que eu tinha escrito em um ou outro post, mas que mesmo assim leu e que escreveu um comentário ou não sabia o que comentar e deixou pra lá.

Meu pai foi um pai foda! Não tem termo melhor pra descrever o “pai brother” que tive. Pai brother que também era tio. O apelido Tio Dudu foi dado por grupo de amigos que tive na adolescência, e ele assumiu esse apelido com gosto até o fim da vida. Eu mesmo chamava ele de Tio Dudu as vezes. Era uma forma carinhosa de me referir a ele. Não pensem que é loucura chamar o próprio pai de brother e tio.

De qualquer maneira, voltando ao Atari. Não esqueço das disputas que rolavam em casa quando eu era criança. Especialmente de Frostbite, o famoso jogo do gelinho. Primeiro que não tinha como bater minha mãe neste jogo. Meu pai e eu tentávamos de toda forma, mas o maior score era sempre o dela. Engraçado que este e Freeway (o das galinhas que atravessam a rodovia) acho que foram os dois únicos jogos que minha mãe jogou em consoles e ninguém ganhava dela. Ainda bem que ela nunca se empolgou com outros jogos, imagino que agora ela estaria encarando o Daigo nos campeonatos de Street Fighter.

Exageros a parte, vira e mexe surgiam embates de Atari em casa. Sinceramente não lembro todos os jogos. Enduro era um que eu não ia longe e sempre pagava um pai pau pra ele jogando. Provavelmente, anos mais tarde o jogo viraria e eu que deixaria ele comendo poeira tranquilamente. Ciclo natural das coisas.

O mais engraçado foi na época do Master System. Meu pai tentou jogar alguns dos jogos que apareceram em casa (meus, alugados ou emprestados), mas acho que aquilo já começava a demonstrar alguma complexidade pra ele. Tanto que no post sobre o console ele até contou a história dele se perdendo no Phantasy Star. E eu lembro dos momentos que acabei “socorrendo” ele e dizendo o que ou como fazer. Claro, ele desistiu algumas vezes e nunca terminou. Não tinha tempo pra isso. Já eu moleque esbanjava tempo. Que saudades dessa época.

O divertido mesmo era jogar jogos de Light Phaser (a arma do console) contra ele. Enquanto eu fazia toda aquela pose pra jogar, ele ia lá e encostava a arma na tela (literalmente) e saía atirando feito um louco, enquanto eu ficava do lado gritando “não vale” e ele ficava dando risadas debochadas e dizendo que não tava nem aí, ainda esfregava na minha cara uma pontuação maior. Só pra eu ficar alucinado jogando depois e bater o recorde dele sem apelar pra encostar na televisão.

Ainda consigo lembrar do sorriso que ele abria quando acontecia, impressão que passa é que era tudo que ele queria mesmo, ficar orgulhoso de me ver conseguir superar ele. A apelação da parte dele hoje me parece muito mais aquele negócio do pai que não ia conseguir ganhar de forma alguma e fez isso pra tentar equilibrar o jogo com o filho, pra que tenha alguma diversão na competição. Vou tentar lembrar de fazer isso com um possível futuro(a) sucessor(a), quando este ser estiver me debulhando no videogame. Futuro(a) filho(a), por favor, não me julgue quando ler isto aqui!

Foi mais ou menos nesta época que surgiu a paixão pelo Tetris. Esse foi um jogo onde a competição não tinha equilíbrio algum, era o extremo oposto do que acontecia no Master System. Enquanto eu não conseguia fazer nenhuma pontuação expressiva, ele enchia o score dele de números. Assim que ele colocava o nome dele, ia me mostrar todo feliz. Até que o portátil era desligado e a pontuação zeraria mais uma vez. Tiveram vezes em que eu que fui atrás dele com algum score que eu achava alto o bastante pra me declarar vencedor, mas ficava pra trás em poucos minutos.

Eu contei no post sobre o jogo, ele se empenhou em me ensinar a jogar. Depois de um tempo eu aprendi, mas nunca mais tentei desafiar ele. Talvez eu não quisesse, eu prefiro imaginar que eu nunca o derrotaria numa disputa do jogo. Pudera, pra alguém que roubou até o meu Game Boy Advance pra continuar jogando Tetris durante anos, ele tava mais do que treinado. É, talvez eu nunca o teria vencido mesmo.

O maior rival do Game Boy também é presente na história dele. Eu contei com poucos detalhes no post sobre o Game Gear, mas vou relembrar: eu já tinha trocado o Master pelo Mega quando comecei a sentir uma certa saudade do console de 8 bits. A solução perfeita era ter um portátil com a mesma potência e muitos dos jogos, inclusive com adaptador (que eu nunca tive) para jogos do console de mesa. Além do aparelho que transformava o Game Gear em uma TV portátil (também nunca tive), achava ele o máximo. Hoje não vejo sentido.

Só que o trocinho era caro pra diacho. Eu lembro que ele me explicou que não poderia dar um daqueles. E lembro também que eu entendia isso e de alguma forma tinha deixado pra lá. Continuaria babando nas revistas e sonhando com um. Se não dava, não dava e ponto final. Até que um certo dia ele estava com um jornal na mão, na parte de classificados, disse ter achado um Game Gear por um preço razoável, que vinha com uma porção de jogos (seis, pra ser preciso) e fonte.

Recentemente meu primo me lembrou que ele tava junto nesse dia. Curiosamente, a minha memória só me permitia lembrar que fomos meu pai e eu na casa da pessoa buscar o portátil. Ele contou com tantos detalhes enquanto a gente conversava que eu me senti até mal de não lembrar. Ele ficou mais quieto enquanto eu babava no portátil. Com algum esforço, enquanto escrevia o texto eu acabei lembrando dele lá sim, eu virando e mostrando pra ele no melhor estilo “olha que legal”, assim que peguei o cartucho de Shinobi II, que era o único americano entre os brasileiros (e chamava atenção por isso, mesmo que fosse sem caixa e manual). A nossa memória as vezes prega uma peças.

Vocês repararam numa coisa legal que aconteceu aqui? Meu pai tentou ser sincero, explicou que não tinha condições de me dar o portátil, me preparou pra não ter. E tudo bem, não era o fim do mundo. Ainda assim, ele continuou procurando, nunca desistiu. Foi atrás de alternativas. E eu lembro dele me explicando que era um aparelho usado, que não seria algo novo e se por mim tudo bem ganhar de presente desta forma (era alguma ocasião especial, mas não lembro qual, provavelmente aniversário). Ele teve toda preocupação, enquanto eu só queria botar as mãos logo no aparelhinho, não importava a origem. Hoje eu reconheço a lição, a preocupação em me fazer entender um pouco mais da vida, mesmo que novo.

Engraçado que um dos últimos presentes que eu dei pra ele foi usado também. E era também um portátil. Como falei, a paixão dele por Tetris e pelo Game Boy me fizeram virar o Mercado Livre de ponta-cabeça até encontrar um que estivesse branquinho, sem riscos na carcaça e na tela e, mais importante, funcionando. Foi um dos últimos Amigos Secretos que ele participou, a reação dele ao ver o aparelho, ele mesmo falando em volume alto que tinha adorado, que tava novinho em folha, mostrando pro resto da família como se fosse o presente mais incrível. Pra quem não curte videogames, provavelmente era só um trocinho velho usado, nada de mais. Mas pra ele era. Isso me traz um sentimento que eu não consigo descrever com palavras. Ah, eu dei pilhas recarregáveis e mais um jogo: Dr. Mario. Mas o negócio dele era o Tetris mesmo.

Recentemente tentei ligar o Game Boy, que acabou voltando pras minhas mãos. E ele não ligou. Também não consigo descrever o tamanho da minha frustração. Ainda assim, vai continuar guardado aqui comigo o tempo que precisar.

Não, eu esqueci de falar neste post sobre o meu videogame preferido de todos os tempos, o Mega Drive. Então permitam que eu entre na geração dos 16 bits finalmente.

A troca do Master pelo Mega foi algo que também foi explicado pelos meus pais, mas neste caso muito mais pela minha mãe. A lição foi dela. Não que eu ligasse que daria o Master e alguns jogos em troca de um Mega, queria muito ele. Entre tantas outras histórias com o console que passei com ela, fica a memória do dia que eu fui na tal locadora do bairro vizinho que estava oferecendo a troca dos consoles, eu parado na frente da prateleira de jogos tentando escolher dois daquela lista enorme de jogos que não conhecia.

O mais marcante do meu pai com o console foi bem mais pra frente que o momento da aquisição. Ocorreu quando finalmente uma versão de Street Fighter 2 foi lançada pra ele. Eu tive um cartucho piratão dele e vivia jogando (e nunca aprendi a jogar direito, que coisa).

Entre todas aquelas vozes roucas que o jogo proporcionava aos donos do Megão, uma se destacava: a do Ryu! Eu sempre jogava com ele. Ainda jogo nos jogos mais modernos, inclusive. E aquela chuva de hadoukens e shoryukens fazia com que meu pai me perseguisse pela casa gritando “rolioquêm” e dando um soco pra cima, pra ficar me provocando. Lembro que na época eu ficava bravo, mas o engraçado que este tipo de piada repetitiva pentelha quem faz nos dias de hoje sou eu quem faço. Uma leve herança que acabei absorvendo dele naturalmente. Fica a saudades dele gritando “rolioquêm” e eu gritando de volta “para, pai”, fazendo ele dar gargalhadas. Que saudades desse pentelho!

Um dos motivos pelo quais eu nunca vendi ou dei o meu Mega Drive de moleque é justamente isso. Ele carrega muita história, não é só mais um videogame antigo guardado em um armário e que sai de lá sempre que eu quero jogar Sonic. Tenho realmente orgulho de ter o mesmo aparelho desde meados de 1991/1992.

Bem, o post já está longo. Por mais que eu ainda tenha histórias pra contar, acho que vou guardar elas para o ano que vem. E quem sabe pra mais anos? Acho válido, se soubessem como é gostoso relembrar essas histórias (e outras paralelas que acabo não contando aqui por não ter relacionamento direto com games). Queria saber descrever isso aqui pra vocês.

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais da história do meu “velho e querido pai” (ele adorava usar este termo, consigo escutar ele dizendo dentro da minha cabeça). E um pouco da minha também, de tabela.

Muito obrigado a todos pela leitura!

Até o próximo post!

Aquele abraço e rolioquêm!

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Sobre Gamer Caduco

Menino novo, com mais de 30 anos de idade, fanático por games de todas as gerações.
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4 respostas para Memórias: O pai, o tio, o “brother” e os 8/16 bits

  1. Drimuer Maked disse:

    Olá, daqui fala um dos teus novos leitores (novo já que comecei a ler os teus posts faz umas semanas), sempre que vejo algo bem feito gosto de fazer uma fanart básica, mas não sabia o que fazer para este site então tentei fazer um bom sprite para ti, espero que gostes: http://www.mediafire.com/view/ma419yxqc7fnecx/Gamer%20Caduco%20Sprite.png

  2. Guilherme Henrique disse:

    Caramba Cadu, maravilhosas suas histórias com seu pai, não tinha lido ainda as dos anos anteriores mas agora vou atrás.
    Ótimo que você ainda tem mais algumas para contar, Tio Dudu sem dúvida foi foda!

  3. aki é rock disse:

    Belo post Caduco e que homenagem legal para o seu pai tenho certeza que ele ia curtir sobre o que você escreveu.

  4. Que homenagem Cadu! Adorei a história!

    Acho que já comentei contigo! Meu pai não era jogador de consoles, mas o que mais jogou e sempre jogava era “Paciência de PC”. Ele era viciado naquilo e passava horas jogando! Me lembro dele sentado na cadeira com as pernas cruzadas em cima da mesa de PC jogando esse game.
    Quando compramos o PC e ele descobriu esse jogo, ele até aprendeu a ligar o PC (ele não manjava nada de PC) e ficava lá jogando enquanto não estava.

    Mas maior lembrança minha mesmo é quando ele me deu o Super Nintendo e você já leu lá no meu blog – Minha história Gamer. Uma das melhores lembranças da minha vida!

    Esses dias escrevi sobre lá no blog sobre a história da troca do Super Futebol com Shinobi de Master System. Dá uma olhada lá quando tiver de boa!

    Abração Cadu.
    ivo.

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